É inevitável uma desaceleração do crédito

Na Comissão de Orçamento e Finanças, o Governador do Banco de Portugal afirmou que o crédito registou um desempenho acima do esperado em 2008, embora já em desaceleração, mas que em 2009 este movimento será mais forte. Vítor Constâncio considera também que será “inevitável uma desaceleração do crédito” concedido à economia em Portugal.

Dados hoje divulgados pelo Banco de Portugal mostram que apesar da crise no mercado de crédito, os bancos portugueses continuam a aumentar o financiamento às empresas e também às famílias.
O crédito concedido às empresas subiu de 110,7 mil milhões em Outubro para 111,5 mil milhões de euros, o que representa um aumento de 0,7%.

No crédito às famílias o financiamento concedido atingiu 132,8 mil milhões de euros, o que representa uma subida de 0,3% contra Outubro e de 4,2% face a Novembro do ano passado.

O governador considera que não será possível distinguir entre o que é explicado por maior exigência dos bancos na concessão de crédito e o que resulta de menor procura de crédito por famílias e empresas.

Reendividamento: agravamento da situação ou uma solução?

A actual conjuntura leva-nos a uma situação de endividamento permanente. Algumas pessoas estão endividadas muito além das suas possibilidades. E esta situação apenas tem a tendência a piorar. Na verdade trata-se de um perigoso ciclo vicioso onde é necessário forçarmos o quebrar do ciclo para nos conseguir levantar. E digo ciclo porque podemos facilmente cair num circuito em que apenas tapamos buracos e perdemos poder de compra.

Quando um crédito entra em incumprimento, a pressão exercida sobre quem deve torna-se quase extrema. São repetidamente contactados quer por telefone, carta e até pessoalmente. É despoletada toda uma máquina de recuperação de crédito implacável e que, à custa dos actuais tempos, se tornou quase infalível. Só existem, normalmente duas formas de nos livrarmos destas situações:

  • 1. Pagando com capitais próprios. Quando a situação aperta pode chegar a altura de liquidarmos parte dos nossos bens. Podemos vender um automóvel ou trocarmos a nossa casa por uma casa arrendada (o que, no meu ponto de vista, não é uma solução negativa). A verdade é que precisamos de realizar dinheiro com alguma celeridade e esta, normalmente, é a forma mais rápida de obter liquidez.
  • 2. Através do reendividamento. Se a situação ainda está minimamente controlado e apenas estamos em incumprimento simples (sem comunicação ao Banco de Portugal) o crédito imediato pode ser a solução. No entanto é preciso ser bem pensado de forma a não cairmos nos ciclos que acima descrevi.
    Muitas pessoas sem se aperceberem caem num círculo que estão continuamente a pedir um crédito para pagar o anterior. E na realidade estão apenas a passar dinheiro de mãos. Até perdendo dinheiro porque cada vez que isto acontece, tem de se juntar despesas, custas, juros e demais taxas. Isto faz com que a situação se torne um vício.
  • Na minha opinião, o produto financeiro que mais promove esta dependência do crédito é a linha de crédito a associada à “conta ordenado”. Neste produto, a instituição bancária adianta-nos um valor que, normalmente, é igual ao montante habitual do nosso vencimento mensal. Este crédito está lá, sempre, pronto a ser usado. Em alguns bancos está inclusive à ordem na nossa conta. Só conseguimos ver o nosso saldo real no saldo contabilístico. Ora a única forma que não usarmos crédito é não o ter. Estando ali disponível é mais que provável que será usado. O problema é que quando o próximo vencimento entrar na conta será apenas para cobrir o que está ao abrigo do crédito por conta ordenado. Basicamente vive-se e trabalha-se para tapar o(s) buraco(s) que vamos deixando ao longo do nosso caminho.

    E não nos podemos esquecer que existem sempre juros associados. Isto é, quando entrar o nosso vencimento ficamos com menos um bocadinho do que tínhamos. E todos os meses nos vai tirando mais um pouco e mais um pouco. Por isso eu considero o reendividamento um dos problemas mais complicados da nossa sociedade. É preciso ter cuidado para não cairmos nesta tentação. E acredite que se lá estiver disponível, irá gasta-lo. É preferível pedir um microcrédito ou um crédito pessoal caso haja motivo para isso.

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