Descoberto autorizado. É bom ou mau?

Actualmente, as pessoas estão com “medo” de aceder ao crédito. Sabemos que as coisas não estão bem e que os tempos não são os melhores para as populações. Com isto em mente, as instituições bancárias criaram uma série de produtos bancários que são normais linhas de crédito, mas dissimuladas com funcionalidades. Uma das mais flagrantes linhas de crédito é a conta ordenado. As instituições bancárias forçam ao máximo a utilização destes produtos bancários. E os benefícios que daí têm são muitos. Se não vejamos:

Ao domiciliarmos o nosso vencimento numa instituição bancária (condição obrigatória para este tipo de conta) têm noção exacta dos rendimentos e padrões de consumo do seu cliente.

  • Ao utilizarmos o crédito ficamos dependentes dos seus serviços.
  • Normalmente domiciliamos também o pagamento de contas bem como transferências programadas nessa conta. Aos poucos ficamos completamente dependentes do serviço.
  • Ao termos e usarmos um banco, são maiores as probabilidades de continuarmos a usa-lo em outros serviços oferecidos também. Com a vantagem de a instituição bancária poder traçar o meu perfil financeiro com acesso directo à conta logo, adequando produtos para a esmagadora maioria dos clientes.

Por outro lado, o cliente também tem vantagens. Nomeadamente o crédito directo e pré-aprovado e já pronto a usar. Muitas vezes inclusive, esse montante está já disponível na conta cabendo ao utilizador utilizar a cabeça e fazer o que está correcto. Estas opções de crédito pessoal com outros “sabores” chegam numa altura em que precisamos desesperadamente de liquidez. A crise instalada atinge todas as pessoas. Independentemente da sua idade, emprego ou status social. Assim, a facilidade de ter ali um crédito disponível para qualquer eventualidade é importante.

Por outro lado excesso de créditos pode ser também problemáticos. Muitas pessoas tendem a viver bastante acima das suas expectativas e isso faz com estes produtos sejam perigosos para estas pessoas. Rapidamente e sem gestão, gasta-se o dinheiro e fica a dívida. E depois lá entramos no ciclo de gerar dinheiro apenas para pagar crédito descoberto.

O descoberto autorizado é útil para aquela altura do mês onde o dinheiro do ordenado já não chega e o próximo ordenado ainda vai longe. Mas cuidado com o crédito pessoal “descoberto autorizado”: As dívidas daí são complicadas de pagar. Lembre-se que é um vencimento inteiro. Significa que se o gastar, no próximo mês a única coisa que fará será pagar a dívida. Ou seja, deixa de ter vencimento. Como qualquer produto bancário, deverá ser usado com consciência de forma a que não se torne um problema ao invés de ser uma solução.

O que fazer perante a crise financeira?

Com certeza que já pensou se perante a crise que se instalou nos mercados mundiais, se vale a pena tirar o seu dinheiro do banco. No entanto, a última coisa que se deve fazer perante uma crise financeira como esta é reagir “a quente” e levantar o dinheiro que tem no banco. Uma actuação deste tipo poderia generalizar-se, o que contribuiria para aumentar ainda mais o pânico e agravar a crise sem razão de ser. Por outro lado, em Portugal, não se perspectiva nenhuma situação de falência no sector bancário.

A generalidade dos bancos portugueses cumpre os requisitos de solvabilidade impostos pelo Banco de Portugal, o que dá alguma garantia de que a situação da banca portuguesa está sob controlo. Além disso, se no limite um banco português entrar em colapso e não for adquirido por outra instituição, será accionado o Fundo de Garantia de Depósitos, que garante o reembolso do dinheiro que um cliente tem depositado no banco até ao limite de 25 mil euros.

Reendividamento: agravamento da situação ou uma solução?

A actual conjuntura leva-nos a uma situação de endividamento permanente. Algumas pessoas estão endividadas muito além das suas possibilidades. E esta situação apenas tem a tendência a piorar. Na verdade trata-se de um perigoso ciclo vicioso onde é necessário forçarmos o quebrar do ciclo para nos conseguir levantar. E digo ciclo porque podemos facilmente cair num circuito em que apenas tapamos buracos e perdemos poder de compra.

Quando um crédito entra em incumprimento, a pressão exercida sobre quem deve torna-se quase extrema. São repetidamente contactados quer por telefone, carta e até pessoalmente. É despoletada toda uma máquina de recuperação de crédito implacável e que, à custa dos actuais tempos, se tornou quase infalível. Só existem, normalmente duas formas de nos livrarmos destas situações:

  • 1. Pagando com capitais próprios. Quando a situação aperta pode chegar a altura de liquidarmos parte dos nossos bens. Podemos vender um automóvel ou trocarmos a nossa casa por uma casa arrendada (o que, no meu ponto de vista, não é uma solução negativa). A verdade é que precisamos de realizar dinheiro com alguma celeridade e esta, normalmente, é a forma mais rápida de obter liquidez.
  • 2. Através do reendividamento. Se a situação ainda está minimamente controlado e apenas estamos em incumprimento simples (sem comunicação ao Banco de Portugal) o crédito imediato pode ser a solução. No entanto é preciso ser bem pensado de forma a não cairmos nos ciclos que acima descrevi.
    Muitas pessoas sem se aperceberem caem num círculo que estão continuamente a pedir um crédito para pagar o anterior. E na realidade estão apenas a passar dinheiro de mãos. Até perdendo dinheiro porque cada vez que isto acontece, tem de se juntar despesas, custas, juros e demais taxas. Isto faz com que a situação se torne um vício.
  • Na minha opinião, o produto financeiro que mais promove esta dependência do crédito é a linha de crédito a associada à “conta ordenado”. Neste produto, a instituição bancária adianta-nos um valor que, normalmente, é igual ao montante habitual do nosso vencimento mensal. Este crédito está lá, sempre, pronto a ser usado. Em alguns bancos está inclusive à ordem na nossa conta. Só conseguimos ver o nosso saldo real no saldo contabilístico. Ora a única forma que não usarmos crédito é não o ter. Estando ali disponível é mais que provável que será usado. O problema é que quando o próximo vencimento entrar na conta será apenas para cobrir o que está ao abrigo do crédito por conta ordenado. Basicamente vive-se e trabalha-se para tapar o(s) buraco(s) que vamos deixando ao longo do nosso caminho.

    E não nos podemos esquecer que existem sempre juros associados. Isto é, quando entrar o nosso vencimento ficamos com menos um bocadinho do que tínhamos. E todos os meses nos vai tirando mais um pouco e mais um pouco. Por isso eu considero o reendividamento um dos problemas mais complicados da nossa sociedade. É preciso ter cuidado para não cairmos nesta tentação. E acredite que se lá estiver disponível, irá gasta-lo. É preferível pedir um microcrédito ou um crédito pessoal caso haja motivo para isso.